sábado, julho 10, 2010


Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.

O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.

Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.

O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.

sexta-feira, julho 02, 2010


LEVE, convença que é seu!
VÁ ENTRANDO,não te pertence?
FALE, dizem que aqui isso é: direito
SUJEITO SEJA, pois não é dos teus
os asujeitados.


Receba todas as interferências que causa
A FAVELA é tua,
A FOME é teu legado,
O LIXO SOCIAL lhe pertence.
O tio San, o velho TRAIÇOEIRO, e suas CRISES
É a tua herança.

















Ana Carolina

Fotografia: Paulo Lucic

Levanto os punhos fechados, grito, verticalizo-me!

Não pelas teorias, não pelo que ouço dos que lêem,
Mas pelo aperto que sinto no avermelhado à esquerda do meu peito, 
Pelas angustias que divido fraternalmente com os convencidos de pequenos, frágeis e trôpegos.
Somos uma massa encorpada por um monte de Zé povinhos,Marias ninguém, Perebinhas.
Que Drummontizam em apenas duas mãos o sentimento que pulsa o mundo, transformemos!


Ana Carolina
(algum momento do janeiro de 2010)

Fotografia: Maria Maria