Ainda atordoada, me ponho a escrever esses troços que já não assustam, que já não deixam o cristão, calejado, com medo do apocalipse.
É uma inversão da indignação coletiva, articulação meticulosa dos exploradores.E tenho me dito implicada nessa coletividade, nesse circo dos horrores, onde crianças são chamadas de degeneradas(e elas mal começaram a viver no degenerado), onde seus semelhantes que estão morando nos lixões são merecedores desse "divino" fardo, que os Sem Terra são "uns encostados" que querem a terra alheia... "vai trabalhar!" E eu me pergunto, mais...? Conheço poucos, só que os Sem terra do Stª Maria, do Bento, do Panema, do Nova Suíça, do Pitinga, e de tantos outros assentamentos, não se dizem, não vivem se não por trabalhar!
"Me invade dilacerando meu corpo esse seu não pudor ético"
Ontem depois do bom dia que alguns desejaram, mas que eu cá com os meus botões duvidei que seria bom mesmo, conseguir acomodar-me no cheio ônibus matinal. Comecei, ou melhor, ela ( a senhora que sentava ao meu lado)começou de maneira conformada, mas com certa indignação, a falar das dificuldades do transporte público da cidade do Salvador. Assunto que instigava a língua de tantos os outros que vertiam olhares insinuativos de aprovação para a nossa conversa, porém ainda se restringiam a balbuciar com as pálpebras.
Foi quando, como já esperado, eu e distinta senhora traçamos paralelos entre o que se fazia doer na carne nos coletivos solteropolitanos, empurrões, saculejos, odores estranhos, esperas e a sensação de enlatados nos "buzus", com as estruturas gradualmente maiores aquelas que mantém a "ordem" social.
A violência urbana, porém, nos prendeu em suas diversas manifestações e demoramos a prosa nela. Foi quando podemos perceber o quão nossa ela é(a violência), por nos atingir onde quer que estejamos.
Lança-se então a frase que, vinha da mesma composição genética do olhar aflito em ser visto, do qual eu insistia em não fazer visível, que estava na cadeira da frente:"A culpa é desses vagabundos, desses rebanho de faz nada, agente trabalha pra eles querer pedir e roubar."
Pronto!
E no famigerado engarrafamento dàs 7h no Comércio, eis que agora uma pequena platéia, que circundava o foco da conversa, basicamente três acentos, concordavam e já diziam "isso mesmo",outros balançavam a cabeça positivamente, exceto uma senhora um pouco a frente que esboçava poucas reações, mas que volta e meia, olhava para trás.
E os "faz-nada" dessa prosa são, os Sem Terra,os Sem Teto, os catadores de latinha, os meninos do sinal. Pois é, eles mesmos, aqueles que não sabem o que são leis trabalhistas, os que desde que nasceram são escravos e nem sabem exatamente de quem ou do que. E formamos então o duelo os explorados (trabalhadores do buzu )versus os explorados (os sem 2,30 para o buzu).
E mesmo me entendendo como "implicada", não me sentia munida pra entrar naquela guerrilha.Era um exército já preenchido das "idéias pré-fabricadas", parafraseando o livro " O menino do dedo verde".
Estive certa, mas não forte. Não discordavam que, era necessário mudar essa lógica ricos muito ricos ,pobres muito pobres, afinal estávamos todos ali como pobres.Toda via, as condições materiais, apenas permitia que pensássemos na sobrevivência presente e a médio prazo, e completavam com, "Não vão me tirar pra Cristo". Pois é, como se pode pedir para uma mãe que tem que garantir o sustento da família, que venha conosco pensar em revolução e dizer-lhe quem é o nosso verdadeiro inimigo,se ela tem é que proteger os filhos gerou? Se ela senti-se resignada na vida que leva,por acreditar que são os desígnios divinos?
O meu conflito começava, eu pendia entre dois papéis de jovem rebelde sem causa, louca ou alguém que possa ser ouvida, papéis que assumia nos vários vais e vens do ônibus, naquela conversa agora coletiva.
Posto que aparece a voz rouca e firme, a senhora que citei anteriormente, a mesma que esboçava poucas reações e que estava uns acentos a frente, fala, "Ela(referia-se a mim)está a vender clichês( e por um estante acreditei que seria mais uma a me dizer, " Você ainda acredita nisso minha filha, pq é jovem").E continuou,"E eu compro todos eles! Já comprei outras vezes, e sempre renovo meu estoque deles, afinal to viva, e não me canso de acreditar que as coisas podem ser diferentes, por que como já dizia um poeta famoso que não me lembro o nome,quem quase vive já morreu!"
Posto que aparece a voz rouca e firme, a senhora que citei anteriormente, a mesma que esboçava poucas reações e que estava uns acentos a frente, fala, "Ela(referia-se a mim)está a vender clichês( e por um estante acreditei que seria mais uma a me dizer, " Você ainda acredita nisso minha filha, pq é jovem").E continuou,"E eu compro todos eles! Já comprei outras vezes, e sempre renovo meu estoque deles, afinal to viva, e não me canso de acreditar que as coisas podem ser diferentes, por que como já dizia um poeta famoso que não me lembro o nome,quem quase vive já morreu!"
Foi ouvida, aquela mulher, não convenceu por completo, ainda se via caras desacreditadas,e resmungos, mas nenhum discurso contra.
E ela não contente, falou, "Será que esse Deus, nosso Deus bondoso, castiga-nos tanto?E pq? Afinal as crianças que já nascem nessas condições, estão pagando pelo que, pelos pecados dos pais? E quando ele diz, faça a tua parte que eu te ajudarei, estamos fazendo a nossa parte, estamos em comunhão, não dessas coisas materiais,mas da dor, do sofrimento,das dificuldades de nossos irmaõs? Ninguém quer ser tirado pra Cristo,mas todos somos cristãos, assim é fácil!"
E falavam muito,e meu ponto se aproximava, e eu tentava não mais ouvi outras vozes senão a dela, já ia descer não queria perder nada o que ela falava, e o brilho nos meus olhos se restaurou, sentia-me pronta agora, com munição, tática e treinada, decidida, guerrilheira!
E ainda consegui ouvi: " Ficar presos em nossas vidinhas, tudo preso pelo individualismo egoísta e brigando com os pobres igual agente.-E já com emoção a assaltando a voz- É que faz eles fortes e a corda continua arrebentando pro nosso lado,(de forma brilhante, entre alguns poucos protestos, termina) arrebentando por matarem nossos filhos de fome, de droga, de falta de vontade de viver, arrebentando nosso corpo nesses trabalho do cão, arrebentando nossa esperança em mais um ônibus lotado de todo santo dia, que não deixa agente ver que as coisas podem mudar!"
Levantei ainda atropelada por essa carreta de realidade, e fui falar com ela, e era mais uma mulher, favelada, negra, mãe, seria mais uma, se não fosse ímpar (e coletivo) seu desejo de "mudar as coisas" de não se deixar conformar, em não respeitar os vertices e arestas da caixa que tentaram coloca-la!
Desci do ônibus.
Ana Carolina

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